Medicina Sufi

“O VALOR DE UMA PESSOA CORRESPONDE AO VALOR QUE ELA DÁ  AO SEU TEMPO”  Shaykh Nazim al-Haqqani an-Naqshband

A Presença Divina é um estado de Graça que só pode ser experienciada no momento presente, esvaziando-se de si mesmo e preenchendo-se do sopro divino (que para nós é inspiração).

Dentro da Tradição Islã, que significa entrega, abandono de si à Alláh (Deus), temos o Sufismo como sua dimensão mística, cujo trabalho é voltado ao auto-aperfeiçoamento do ser humano, buscando a união com Alláh. Os sufis também são conhecidos como “dervishes”, que em persa significa pobres. Esta pobreza num sentido mais profundo de desapego com o mundo, de não possuir nada para o ego se identificar, mas que também pode ser externalizada com o vestir farrapos de lã e viver como monge andarilho e viajante.

A prática Sufi não é algo que se possa adquirir por meio da erudição ou por técnicas, mas antes por meio de uma experiência do Sagrado. Dentro do Sufismo é observado que o órgão para se ter acesso a essas experiências é o coração (“qalb”), pois o conhecimento intelectual sozinho é insuficiente, pois mesmo a “ma’rifa” (conhecimento e cognição da realidade) tem seu centro no coração, que lhe permite um conhecimento em contínua transformação. A este respeito grandes sufis, como al-Nuri e Ibn ‘Arabi afirmam que, diante da infinidade de atributos divinos, somente um órgão espiritual como o coração, com sua plasticidade, seria capaz de assumir diversas formas para receber esta multiplicidade de manifestações Divinas. Pois o coração, em sua essência, é mudança contínua, perpétua transformação, e não se prende a nenhuma configuração definitiva. A idéia do caminho Sufi ainda implica uma concepção de que o ser humano não é somente servo de Deus, mas pode se tornar também seu amigo (“wali”), esposo de Deus e seu perfume sobre a terra. Com isto, surge em seu meio uma teoria dos amigos de Deus ou da santidade (“wilaya”). Sempre haverá amigos de Deus no mundo, que serão responsáveis por mantê-lo em seu eixo. Os amigos de Deus intercedem junto d’Ele pela humanidade e seu poder espiritual pode permanecer mesmo após sua morte, o que propicia a crença na permanência de sua “baraka” (sopro divino, energia espiritual) junto a seu túmulo e, portanto, a prática da visita aos mesmos, transformados agora em locais sagrados, que contêm, segundo hipótese de Ibn’Arabi, uma concentração de energia espiritual, “himma”. Em contraste com a missão pública dos profetas, os “amigos de Deus” têm uma missão privada e secreta. Para se chegar a ser um amigo de Deus (“wali”), o viajante deve adquirir algumas virtudes, como a pureza do coração e o desapego. Segundo uma metáfora, o coração humano é como um espelho que tem que ser polido para que possa refletir a beleza do Ser Divino. Para isto, deve se livrar do egoísmo, ambição, orgulho, vaidade e hipocrisia, entre outras coisas. Deve se libertar também de seus apegos. O “dervishe” deve realizar um processo de purificação do coração, de desidentificação com as coisas do mundo e uma busca de identificação com Deus. Por isto, no meio Sufi se valoriza a qualidade de pobreza, humildade e simplicidade, de desapego de todas as coisas materiais e espirituais para que o viajante seja livre na sua busca do Real.

Como já vimos, vida é movimento. A dinâmica da vida é a eterna mudança. E para haver mudança é preciso o Tempo. No Sufismo o Tempo é a “Mão de Alláh”: que move tudo ao longo do seu caminho, em direção a seu destino estabelecido. Assim, por meio deste reino do tempo e espaço Alláh intenciona nos dar uma chance de auto-aperfeiçoamento, de adquirir Atributos Divinos através de nossos próprios esforços em um ambiente difícil e assim preparar-nos para o dia da reunião com nosso Senhor.

Antes de mais nada, precisamos compreender o valor do tempo. Como, uma vez gasto, é irrecuperável! Se todas as nações reunissem seus recursos para tentar reaver mesmo que fosse um milésimo de segundo do passado (para mudar uma decisão catastrófica, por exemplo) poderiam ter sucesso? Obviamente não, uma montanha de tesouros não trará de volta nem mesmo um milésimo de segundo de nossa vida.

Algumas pessoas conseguem compreender o significado/valor da passagem do tempo e a observam com o olhar da sabedoria. Estas pessoas lidam com o tempo segurando as rédeas de cada dia que passa, buscando ser o mais eficiente e justo possível. Utilizam esta visão por Alláh para levar suas vidas na direção certa.

Outros, todavia, percebem o tempo (consequentemente a própria vida) de maneira distorcida, como uma pessoa olhando um espelho côncavo ou convexo, embaçado ou sujo. Esta doença da percepção ocorre porque tais pessoas não estão harmonizadas com a “Mão de Alláh”, seus corações possuem impurezas que impossibilitam o olhar por Alláh, não percebendo a relação de causa e efeito em tudo que ocorre, nem compreendendo a razão pela qual Alláh nos confinou a este mundo.

Quem aqui já não desejou que certos momentos durassem mais e que outros passassem mais rápido?

Ocorre que o tempo nunca irá passar depressa ou devagar para se acomodar aos nossos desejos. Todavia, a percepção do tempo é modificável. Recebemos esta dádiva de Alláh: a mudança natural da percepção do tempo.

Quando existe alguma dor ou sofrimento a percepção do tempo é devagar, para que possamos refletir, arrependermos e mudarmos nossos maus hábitos, assim, a dor tem a missão de nos acordar para a necessidade de ajustes em nosso estilo de vida.

Quando há desejos (paixões) a percepção do tempo é rápida, para nos mostrar que estes nos impulsionam perdidamente sem a direção certa, ou melhor, nesse caso a direção do desejo egóico é sempre o sofrimento.

Existe, porém, momentos em que a percepção do tempo para. Quem está presente nesses momentos eternos?

O Amor!!! Cuja missão é nos mostrar a perfeição, a Presença Divina.

Será que alguém ainda tem dúvida que todos os males têm sua origem no coração?

Como você se sente em relação ao tempo e à vida? Seu coração está tentando voltar sua atenção para a necessidade de mudanças?

Somente o Caminho do Coração nos abre para a Verdade e nos proporciona a cura.

Dentro do Sufismo existe um aforismo que diz: “O Sufi é filho do momento presente” ou “O Sufi é filho do seu próprio momento”. Significa que o Sufi trata seu tempo com a mesma veneração e respeito com que trata seus pais ou Seu Pai e Creador. A devoção filial é um dever supremo na religião, e no Caminho Sufi somos exortados a honrar nosso tempo como se estivéssemos honrando nosso pai ou mãe, e a Alláh. Um verdadeiro dervishe nunca desperdiçará um momento sequer, segurá-lo-á como um cavaleiro segura as rédeas de seu cavalo, usando sua habilidade para que ele avance na direção certa e na velocidade certa. Observe um verdadeiro dervishe e o encontrará sempre ocupado com algo útil, nunca com atividades danosas ou inúteis.

Vigiai seu precioso tempo. Faça cada momento viver e ser eterno!

Uma resposta para Medicina Sufi

  1. Fran disse:

    Nem sempre paramos para refletir sobre a percepção do tempo. Até identificamos a percepção, mas falta a reflexão. Por exemplo, penso que, muito provavelmente, se existisse a consciência da lição de que momentos de dor parecem ter maior duração a fim de que possamos analisar condutas, refletir etc., saberíamos como enfrentá-la muito melhor e, assim, aprender e evoluir.
    Adorei refletir sobre o texto exposto.

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