O Sermão da Montanha

O Sermão da Montanha (1890), pintura de Carl Heinrich Bloch

O Sermão da Montanha, relatado na Bíblia dentro do Evangelho de São Mateus (capítulos 5 a 7), é a maior e mais concisa instrução dada por Jesus Cristo. Nele Cristo profere instruções de conduta moral-espiritual superior que mostram o caminho correto para a humanidade chegar ao Reino de Deus. Ensina os princípios e virtudes que normam e orientam a vida dos verdadeiros filhos de Deus, aqueles que põem em prática a Vontade de Deus.

O Sermão da Montanha pode ser considerado o supra-sumo dos ensinamentos de Deus a respeito de como chegar à verdadeira felicidade (bem-aventurança).

Além de importantes princípios morais-espirituais, podemos notar também grandes revelações, pois aquilo que muitas vezes é tido por ruim ou desagradável, perante Deus é o que realmente nos levará à verdadeira felicidade. Isto pode parecer um paradoxo para muitos, entretanto, mais uma vez nos é revelado que “…Deus não vê como o homem vê, o homem vê a aparência, mas Deus sonda o coração” (I Samuel 16.7).

Introdução narrativa (Mt 5, 1-2)

Na introdução narrativa, o evangelista descreve que “vendo aquelas multidões, Jesus subiu à montanha. Sentou-se e seus discípulos aproximaram-se dele.” Então, Cristo começa a pregar sua luminosa instrução.

As Bem-aventuranças: a verdadeira felicidade (Mt 5: 3-12)

“Bem-aventurados os humildes pelo espírito, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados os que choram, porque serão consolados! Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra! Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados! Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia! Bem-aventurados os puros de coração, porque verão Deus! Bem-aventurados os pacíficadores, porque serão chamados filhos de Deus! Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus! Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de Mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.” (Mateus, 5:3-12)

As Bem-aventuranças são o anúncio da verdadeira felicidade. Com elas Jesus proclama a verdadeira e plena libertação, e não o conformismo ou a alienação. Elas anunciam a vinda do Reino de Deus, não somente através da vida de Jesus (que nos dá o exemplo fiel da verdadeira justiça e natureza divina a ser seguida), mas principalmente pela conduta dos bem-aventurados que o seguem.

As Bem-aventuranças revelam assim o caráter divino das pessoas que pertencem ao Reino de Deus, exortando-nos a seguir este caráter exemplar.

Usando as palavras do Catecismo da Igreja Católica (CIC), as bem-aventuranças nos ensinam o fim último ao qual Deus nos chama: o Reino de Deus, a visão de Deus, a participação na natureza divina, a vida eterna, a filiação divina, o repouso em Deus (CIC, n. 1726).

Quando somos humildes em espírito reconhecemos e sentimos nossa pequenez perante Deus. A humildade nos faz manifestar uma ação caridosa espontânea, não condicionada a obter algo em retorno. Reconhecemos as necessidades exatas dos outros e naturalmente passamos a não tomar nem mais nem menos do que nos é necessário. Desapegamo-nos das coisas externas. É a simplicidade em excelência.

Os que choram também se curvam perante Deus, sentem a virtude da Vergonha, que nos dá o sentimento de arrependimento e reconhecimento de nossos erros, fazendo-nos melhorar, limpando nossa culpa de consciência e resgatando nossa pureza de coração. Somos assim consolados, percebendo que tudo faz parte de um processo de aprendizagem (Caminho-Curso da Vida) para reconhecer a grandiosidade de nosso Deus Pai.

Os mansos são os tolerantes, que possuem serenidade, paciência e sabedoria, são desprovidos de qualquer tipo de violência, seja física ou mental, atingiram o maior resultado da educação. Os mansos perdoam, pois compreendem a ignorância humana.

Os que têm sede e fome de justiça buscam a justiça assim como busca o ar aquele que está se afogando. Estão insatisfeitos com as atitudes injustas. Estes serão saciados quando reconhecerem e sentirem a justiça divina, passando a respeitar a Lei e a Ordem Divina, assumindo uma conduta justa e reta perante Deus, alcançando assim o equilíbrio interior. Então, sua insatisfação com a injustiça humana toma outro rumo – serão os justos de Deus que pacificam o mundo pelo próprio exemplo.

Os misericordiosos são os que sentem e percebem a miséria de seu coração e a do próximo, participando dos sofrimentos alheios, com amor estão sempre dispostos a ajudar os fracos, os ignorantes, os doentes, todos os necessitados. Jesus em sua imensa Misericórdia participou de nosso sofrimento, sacrificando a si mesmo por nós, mostrando-nos assim o Caminho para nossa libertação. Os misericordiosos se sacrificam pelos outros.

Os puros de coração são libertos de paixões, seus corações são preenchidos pelo amor divino. São como crianças cheias de vida, inocentes, não tem olhos para a maldade, reconhecem que são pequenos e necessitam da ajuda do Pai para Caminhar e do sustento do Pai para sobreviver. Não têm medo de errar, corrigindo-se rapidamente quando necessário, suas intenções são puras, podem ver e sentir a Presença do Pai, por isso confiam plenamente em Sua Providência. Os puros de coração, quando sentem o chamado do Pai, entram em novas situações sem idéias nem expectativas pré-concebidas do que vão encontrar, estando abertos a qualquer situação que se apresente, o que lhes permite se adaptar com naturalidade a um curso correto de ação. Os puros de coração são fiéis ao Coração de Deus, mesmo não sabendo a forma exata de agir, dão o melhor de si para servir à Vontade do Pai.

Os pacificadores são os fazedores de paz, que possuem em seu coração a força de harmonizar o mundo. São harmoniosos e sintonizados com Deus, recebendo o dom de expandir esta luz sobre a consciência e o coração das pessoas. “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz” disse Jesus nas vésperas de sua crucificação. Os pacificadores são os que recebem esta paz espiritual diretamente da Fonte e compartilham-na com os outros, acalmando os corações e transmitindo a luz do Espírito Santo.

Bem-aventurados são todos estes que, em razão de sua conduta moral-espiritual superior, são insultados e perseguidos pelos operários inconscientes do maligno que incitam e tentam defender as paixões mundanas.

Sal da terra, luz do mundo (Mateus, 5:13-16)

“Vós sois o sal da terra. Se o sal perde o sabor, com que lhe será restituído o sabor? Para nada mais serve senão para ser lançado fora e calcado pelos homens. Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre uma montanha nem se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sim para colocá-la sobre o candeeiro, a fim de que brilhe a todos os que estão em casa. Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus.” (Mateus, 5:13-16)

Jesus, através das metáforas de Sal e de Luz, revela a enorme força daqueles que dão testemunho e exemplo do amor divino, seus seguidores bem-aventurados capazes de iluminar o coração (natureza divina) das outras pessoas, demonstrando assim nossa importante função de conservar a bondade/amor, tempero essencial que protege a humanidade contra os dissabores das influências malignas da corrupção e da maldade (sal rançoso).

A nova lei comparada à antiga (Mateus, 5:17-48)

“Não julgueis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição. Pois em verdade vos digo: passará o céu e a terra, antes que desapareça um jota, um traço da lei. Aquele que violar um destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar assim aos homens, será declarado o menor no Reino dos Céus. Mas aquele que os guardar e os ensinar será declarado grande no Reino dos Céus. Digo-vos, pois, se vossa justiça não for maior que a dos escribas e fariseus, não entrareis no Reino dos Céus.” (Mateus, 5:17-20)

Jesus revalida os Mandamentos dos Profetas e vai além para levá-los à perfeição.

Nos versículos 21 a 26, Cristo, então, reinterpreta e amplia o sentido do que foi dito aos antigos: “não matarás, para não ser castigado pelo juízo do tribunal”, instruindo-nos inclusive a não nos irar contra nosso irmão para não sermos castigados; não insultar nosso irmão para não sermos ainda mais castigados (pois quem insulta além do sentimento negativo que gera em si, externaliza esta negatividade com maledicência); e também a não fazer o que é ainda pior, insultar dolosamente a essência e o caráter do irmão, pois estes estão sujeitos ao fogo do inferno (aqui percebemos que a gravidade deste crime-pecado é muito pior).

E acrescenta que se estivermos a fazer uma oferta diante do altar, uma prece que seja, e nos lembrarmos que um irmão tem alguma coisa (dívida ou ressentimento) contra nós, devemos largar nossa oferta e ir primeiro nos reconciliar com nosso irmão.

Devemos entrar em acordo com a outra pessoa (harmonizar os corações) o mais rápido possível, enquanto esta pessoa ainda estiver em nosso caminho, para não sermos aprisionados pela condenação do juízo.

Jesus então salienta que não sairemos da prisão até pagarmos o último centavo.

Nos versículos 27 a 32, Jesus amplia o conceito de adultério, afirmando que todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração, sendo que mais vale arrancar o olho direito ou a mão direita, se esta ou aquele te faz cair, do que ser lançado inteiro no fogo do inferno. Com isso, o significado de adultério passa a ser mais amplo e profundo, sendo a fidelidade para com o próprio Coração de Deus e não somente para os casados em relação a seus cônjuges. E assim Jesus opõe-se ao divórcio, ensinando que todo aquele que rejeita sua mulher, a faz tornar-se adúltera, a não ser que se trate de matrimônio falso; e todo aquele que desposa uma mulher rejeitada comete um adultério, defendendo e acentuando assim a fidelidade incondicional.

Jesus também ensina que não devemos jurar de modo algum, muito menos jurar falso. Devemos dizer somente sim, se é sim; não, se é não (Mt 3, 33-37). Em outras palavras, precisamos ser bastante prudentes em nossos dizeres, devendo sempre dizer a verdade e da forma mais simples possível. Pois tudo que passa além disto vem do Maligno (não é essencial).

Em relação à lei do talião “olho por olho, dente por dente” que gera uma aparente justiça, com resultados frios e calculistas, sem amor, Jesus nos instrui: “não resistais ao mau. Se alguém te ferir a face direita, oferece-lhe também a outra. Se alguém te citar em justiça para tirar-te a túnica, cede-lhe também a capa. Se alguém vem obrigar-te a andar mil passos com ele, anda dois mil. Dá a quem te pede e não te desvies daquele que te quer pedir emprestado.” (Mt 5, 38-42).

Com isto fica clara a instrução de não apenas sermos tolerantes e perdoarmos o mau, como também sermos generosos com ele, pois só assim o mau desaparece. Não resistir ao mau, significa aceitá-lo com amor no coração, sem decair/perder nosso estado de pureza de espírito. Isso não quer dizer que pactuamos ou devemos ficar passivos à ação maléfica. Podemos e devemos responder com vivacidade, mas sempre com amor e bondade no coração e na forma de agir. Um exemplo real desta prática nos últimos 100 anos foi o de Gandhi que seguindo o Sermão da Montanha conseguiu guiar seu povo, alcançando sem violência a independência da Índia. Jesus também nos instrui a sermos amorosos e caridosos com aqueles que nos pedem, inclusive os que alegam, falsamente ou não, terem sidos injustiçados, não devendo nos desviar deles e dar ainda mais que o solicitado.

No fim do capítulo 5, nos versículos 43 a 48, Cristo explica o modo necessário para sermos filhos de Deus, advertindo-nos sobre a verdadeira abrangência do “amarás o teu próximo”, que inclui o amar aos inimigos, fazendo bem aos que nos odeiam e orando pelos que nos maltratam e perseguem, manifestando um amor incondicional tal como Deus, que faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos. Então, Jesus conclui com o imperativo “sede perfeitos, assim como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5, 43-48).

Fazer as boas obras em segredo (Mateus, 6:1-18)

“Guardai-vos de fazer vossas boas obras diante dos homens, para serdes vistos por eles. Do contrário, não tereis recompensa junto de vosso Pai que está no céu.” (Mateus, 6:1)

Jesus nos ensina a realizar boas obras em segredo para assim sermos recompensados junto ao nosso Pai que está no céu (tesouros no céu), resguardando desta maneira a natureza pura de nossas boas obras, o coração sincero e humilde por quais estas foram realizadas. Pois o alarde sempre suja a pureza da obra.

“Quando, pois, dás esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. Assim, a tua esmola se fará em segredo; e teu Pai, que vê o escondido, recompensar-te-á.” (Mateus, 6:2-4)

Jesus demonstra o coração verdadeiro de ser caridoso, ensinando que nossa esmola seja feita em segredo. Observando que a natureza de dar esmolas em segredo é a mesma natureza do céu; e a natureza de dar esmolas se exibindo e querendo validação dos outros é a mesma natureza da terra. A intenção dos bem-aventurados é sempre servir ao bem do outro, sem qualquer vantagem para si mesmo na terra. A intenção dos hipócritas é sempre em benefício próprio, buscando validação e vantagens para si.

Disse Santo Antônio em um de seus sermões:

– Imenso tesouro é a esmola! Diz S. Lourenço: “As mãos dos pobres é que colocaram nos tesouros celestes as riquezas da Igreja!” Acumula tesouros no céu quem dá a Cristo e dá a Cristo quem dá ao pobre: Aquilo que fizestes a um destes mais pequeninos, o fizestes a mim! (Mt 25,40). “Esmola” é uma palavra grega que em latim se diz “misericórdia”. Por sua vez misericórdia significa “que irriga o mísero coração”. O homem irriga o pomar para colher os frutos. Tu, também, irriga o coração do pobre miserável através da esmola que é chamada água de Deus para obter seus frutos na vida eterna. Seja o pobre o teu céu! Coloca nele o teu tesouro, para que nele esteja sempre o teu coração. E isso, sobretudo agora, durante a santa Quaresma. Onde está o coração, aí também está o olho; e onde estão o coração e o olho, alí também está a inteligência, sobre a qual diz o salmo: “Feliz aquele que atende (“intelligit” = tem cuidado) ao mísero e ao pobre” (40,2). Daniel disse a Nabucodonosor: “Seja-te aceito, ó rei, o meu conselho: desconta teus pecados com a esmola, desconta tuas maldades com obras de misericórdia para com os pobres” (Dn 4,24). Muitos são os pecados, muitas são as dívidas e por isso, muitas devem ser as esmolas e muitas as obras de misericórdia para com os pobres [de espírito]. Assim nossa alma é resgatada por elas da escravidão do pecado (maldade), para voltarmos livres à pátria celeste.

“Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que desfiguram o rosto a fim de serem vistos pelos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á.” (Mateus, 6:16-18)

Jesus nos ensina a quando nos abstivermos de qualquer coisa ou desejo, façamo-la com alegria sincera, sendo honestos, apresentando um bom semblante, pois esta é a natureza correta do ato de jejuar. Se mostrarmos um semblante abatido já teremos recebido a recompensa na terra com a comoção e validação dos outros.

Em relação a esta passagem, diz Santo Antôni:

-“Quando jejuardes”. Lê-se na História Natural que com a saliva do homem em jejum resiste-se aos animais portadores de veneno; aliás, se uma cobra o ingere, morre (Plínio). Portanto, no homem em jejum existe verdadeiramente um grande remédio. Adão no paraíso terrestre, até que não comeu (jejum) do fruto proibido, permaneceu na inocência. Eis aí o remédio que mata a diabólica serpente e restitui o paraíso, perdido por culpa da gula. Por isso conta-se que Ester castigou seu corpo com jejuns para fazer cair o orgulhoso Aman e reconquistar aos judeus a benevolência do rei Assuero. Jejuai, portanto, se quiserdes conseguir estas duas coisas: a vitória sobre o diabo e a restituição da graça perdida. Mas “quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas”, isto é, não queirais ostentar o vosso jejum com a tristeza do rosto. Hipócrita diz-se também “dourado”, isto é, que tem a aparência do ouro mas, internamente, na consciência é barro. Este é o ídolo dos babilônios (Baal), de quem diz Daniel: “Não te enganes, ó rei, este ídolo, de fora é de bronze; dentro, porém, é só barro” (14,6). O bronze ressoa e pelo aspecto pode quase parecer ouro. Assim também o hipócrita ama o som do louvor e ostenta um pouquinho de santidade. O hipócrita pode parecer humilde no rosto, simples no vestir, submisso na voz, mas lobo em sua mente. Esta tristeza não é segundo Deus. É uma maneira estranha de buscar para si mesmo o louvor, essa de ostentar os sinais da tristeza. Os homens estão acostumados a alegrar-se quando ganham dinheiro. Porém, são negócios diferentes: nestes últimos existe a vaidade, nos outros a falsidade. “Desfiguram o rosto”, isto é, desfiguram-no para além dos limites da condição humana; como se pode orgulhar da beleza das vestes, pode-se também fazê-lo pela autoria da obra que lhe trouxe a feiúra e falta de cor. Não se deve chegar a uma sem cor exagerada e nem a uma excessiva vaidade: é bom estar na justa medida! “A fim de serem vistos pelos homens…” Qualquer coisa que fazem é apenas, aparência, pintado de um falso colorido. Fazem-no para aparecerem diferentes dos outros e serem bajulados. “…jejuam”. Assim, o hipócrita jejua para receber louvor disso, o avarento para encher o bolso, o justo para agradar a Deus. “Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa”. Eis a recompensa do prostíbulo, de que diz Moisés: “Não prostituas tua filha” (Lv 19,29). Filha representa as obras deles: colocam-nas no prostíbulo do mundo para receberem a recompensa do louvor. Seria loucura de quem vendesse como uma moeda de chumbo uma preciosa moeda de ouro. Na realidade vende por um preço muito barato algo de grande valor, aquele que faz o bem só para ser louvado pelos homens. . “Quando jejuares, unge a tua cabeça e lava o teu rosto.“, este jejum transforma-se para os penitentes em alegria da mente, felicidade de amor divino e em esplêndida solenidade de celeste convivência. Isto quer dizer ungir a cabeça e lavar o rosto. Unge a cabeça aquele que em seu interior está cheio de alegria espiritual. Lava o rosto aquele que orna as suas obras com a honestidade da vida.

“Quando orardes, não façais como os hipócritas, que gostam de orar de pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas, para serem vistos pelos homens. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa. Quando orares, entra no teu quarto, fecha a porta e ora ao teu Pai em segredo; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. Nas vossas orações, não multipliqueis as palavras, como fazem os pagãos que julgam que serão ouvidos à força de palavras. Não os imiteis, porque vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós lho peçais.” (Mateus, 6:5-8)

Jesus nos instrui o coração verdadeiro de orar, demonstrando que é mais importante a fé e qualidade de nossa intenção do que a quantidade de repetições da oração. Orientando-nos para quando orarmos, entrar em nosso quarto, fechar a porta e orar a Deus em segredo, ao invés de fazer como os hipócritas, que gostam de orar de pé nos templos ou em qualquer outro lugar, diante de outros.

A natureza de quem ora em segredo e na simplicidade é pura e sincera; a natureza de quem ora cheio de pompas diante do outros é validação ou vaidade.

Durante seus esclarecimentos sobre a oração, Jesus nos ensina como deve ser nossa invocação ao nosso Pai Celeste.

“Pai Nosso, que estais no céu, santificado seja o vosso nome; venha a nós o vosso Reino; seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. O pão nosso de cada dia nos dai hoje; perdoai-nos as nossas dívidas (ofensas), assim como nós perdoamos nossos devedores (quem nos tem ofendido); e não nos deixeis cair em tentação, mas livrai-nos do mal.” (Mateus, 6:9-13)

No Pai-Nosso invocamos o nosso Pai Celeste Onisciente, glorificando Vosso nome; demonstrando nossa intenção sincera de que se manifeste em nós o Vosso Reino; sendo feita a Vossa Vontade do mesmo modo na Terra como no Céu, unificando assim a Vontade Divina como nossas ações/obras e nossos pensamentos/palavras. Suplicamos pelo alimento suficiente de hoje para que tudo isso seja presente; que seja o Vosso perdão dirigido a nós, assim como nós perdoamos nossos devedores e opressores; e não nos deixeis cair em tentação, tentando sem êxito a felicidade em coisas superficiais, mas livrai-nos do mal de toda e qualquer impureza sobre o nosso coração. Amém!

Jesus então reafirma, agora mais explicitamente, que se perdoardes aos homens as suas dívidas/ofensas, vosso Pai celeste também vos perdoará. Mas se não perdoardes aos homens, tampouco vosso Pai vos perdoará (Mt 6, 14-15). Deixando bem claro que numa situação como esta de nada adianta rezarmos repetidamente, fazendo oferenda para pedir o perdão de nosso Pai Celeste. Lembremos que nosso Pai tem a perdoar muito mais pecados nossos do que nós em relação aos outros. Sendo que para encerrarmos nossas dívidas, a via do perdão é muito mais rápida e suave do que a via do pagar as dívidas com o esforço de preces e doações.

Tesouro do céu. Olho são

“Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a ferrugem e as traças corroem, onde os ladrões furtam e roubam. Ajuntai para vós tesouros no céu, onde não os consomem nem as traças nem a ferrugem, e os ladrões não furtam nem roubam. Porque onde está o teu tesouro, lá também está teu coração.” (Mateus, 6:19-21)

Jesus nos ensina a não perder nosso tempo juntando tesouros na terra, que se deterioram, significando qualquer coisa mundana e passageira que possamos dar valor e que nos faz esquecer de nossa essência (imagem e semelhança de Deus), perdendo assim a pureza de nosso coração. Salienta que precisamos cultivar virtudes do céu, as quais depois de conquistadas são nosso maior tesouro na eternidade, proporcionam paz e felicidade permanentes, pois não se corroem, nem ladrões furtam ou roubam. Novamente Jesus fala da importância de onde colocamos nosso coração.

Vejamos o que diz Santo Antônio:

– A ferrugem corrói os metais, a traça corrói as roupas; o que se salva destes dois flagelos, os ladrões roubam. Com estas três expressões é condenada toda forma de avareza. Vejamos o significado moral das cinco palavras: terra, tesouros, ferrugem, traça e ladrões. A terra, assim chamada porque se seca (em latim “torret”) pela seca natural, representa a carne que é de tal modo sedenta que nunca diz: chega! Tesouros são os preciosos sentidos do corpo. A ferrugem, doença do ferro, assim chamada do verbo latim “eródere”, indica a impureza que, enquanto parece agradar, acaba com a beleza da alma e a corrói. A traça, assim chamada porque “segura”, indica o orgulho ou então a ira. Os ladrões (em latim “fures”, de furrus = obscuro), que trabalham na escuridão da noite, representam os demônios. Portanto, se carregamos alguma coisa na carne, escondemos os tesouros na terra, quer dizer: enquanto usamos os preciosos sentidos do corpo nos desejos terrenos ou da carne, a ferrugem; isto é, a impureza, os corrói. Além disso, o orgulho, a ira e demais vícios destróem a roupa dos bons costumes e, se sobrar ainda alguma coisa, os demônios a roubam, pois estão sempre interessados justamente nisso: roubar os bens espirituais. “Acumulai-vos de tesouros no céu”.

“O olho é a luz do corpo. Se teu olho é são, todo o teu corpo será iluminado. Se teu olho estiver em mau estado, todo o teu corpo estará nas trevas. Se a luz que está em ti são trevas, quão espessas deverão ser as trevas!” (Mateus, 6:22-23)

O olho aqui está no singular simbolizando nosso olho espiritual (nossa consciência e percepção à Verdade, nossa visão do mundo), que quando é são ilumina todo nosso ser, mas quando em mau estado apaga nossa luz, deixando nossa consciência e percepção sombrias. Nossa consciência é sã quando nosso coração está em paz e nossas ações estão em sintonia com Deus. Se nossas ações não são virtuosas, então, ferimos nossa consciência, enfraquecendo-a (escurecendo-a), sentimos nosso coração inquieto ressoando as emoções negativas por nosso corpo, tornando cada vez mais espessa as trevas em nós.

Incompatibilidade de servir a dois senhores

“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e à riqueza.” (Mateus, 6:24)

Se nosso coração está voltado ao dinheiro, em busca de conforto, bens materiais, luxúria…, então, estamos desprezando a Deus. Pois, aqueles que servem ao dinheiro, correndo atrás de riqueza, colocam sua alma à disposição do Maligno, e acabam deixando de servir a Deus (adiando ou perdendo a própria felicidade).

Ansiedade na vida

“Por isso, vos digo: não andeis ansiosos pela vossa vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo, mais do que as vestes? Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem ajuntam em celeiros; contudo, vosso Pai celeste as sustenta. Porventura, não valeis vós muito mais do que as aves? Qual de vós, por ansioso que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso da sua vida? E por que andais ansiosos quanto ao vestuário? Observai como crescem os lírios do campo: eles não trabalham, nem fiam. Eu, contudo, vos afirmo que nem Salomão, em toda a sua glória, se vestiu como qualquer deles. Ora, se Deus veste assim a erva do campo, que hoje existe e amanhã é lançada no forno, quanto mais a vós outros, homens de pequena fé?” (Mateus, 6:25-30)

“Não vos aflijais, nem digais: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos vestiremos? São os pagãos que se preocupam com tudo isso. Ora, vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isso. Buscai em primeiro lugar o Reino de Deus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão dadas em acréscimo. Não vos preocupeis, pois, com o dia de amanhã: o dia de amanhã terá as suas preocupações próprias. A cada dia basta o seu cuidado.” (Mateus, 6:31-34)

Jesus adverte aos que seguem sua disciplina para não se preocuparem com a vida e com o corpo, dando importância a suas necessidades físicas, pois isto demonstra pouca fé.  Devemos buscar primeiro o Reino de Deus, realizando as bem-aventuranças, então, todas estas coisas nos serão dadas naturalmente em acréscimo, inclusive riquezas, pois nosso Pai é o mais rico, dono de tudo.

Isso significa que nossas ações devem sempre estar voltadas ao bem comum, especialmente ao do próximo, e não ao pessoal (que ignora o próximo); que nossas ações devem estar pautadas conforme os preceitos divinos, a Vontade de Deus. Pois, nosso Pai quer que sejamos verdadeiramente felizes, todos juntos, como irmãos e filhos de Deus! Precisamos ter fé na Providência Divina, realizando as bem-aventuranças e sem nos preocupar com o amanhã, pois é no aqui e agora que está a Presença de Deus. E quando Deus está presente, nada nos falta.

Os pedidos dos filhos de Deus

“Pedi e dar-se-vos-á. Buscai e encontrareis. Batei e vos será aberto. Porque todo aquele que pede, recebe. Quem busca, acha. A quem bate, abrir-se-á. Quem dentre vós dará uma pedra a seu filho, se este lhe pedir pão? E, se lhe pedir um peixe, dar-lhe-á uma serpente? Se vós, pois, que sois maus, sabeis dar boas coisas a vossos filhos, quanto mais vosso Pai celeste dará boas coisas aos que lhe pedirem.” (Mateus, 7:7-11)

Aos filhos de Deus, que seguem as bem-aventuranças, todos os bons pedidos feitos ao Pai (que seguem obviamente os preceitos divinos) serão dados.

Julgar os outros

“Não julgueis, e não sereis julgados. Porque do mesmo modo que julgardes, sereis também vós julgados e, com a medida com que tiverdes medido, também vós sereis medidos. Por que olhas a palha que está no olho do teu irmão e não vês a trave que está no teu? Como ousas dizer a teu irmão: Deixa-me tirar a palha do teu olho, quando tens uma trave no teu? Hipócrita! Tira primeiro a trave de teu olho e assim verás para tirar a palha do olho do teu irmão.” (Mateus, 7:1-5)

Somente Deus compreende a Verdade Absoluta, tendo autoridade para julgar os homens justamente. Não sejamos hipócritas achando que somos melhores que os outros. Sejamos humildes para reconhecer nossos próprios erros e mansos (tolerantes) com nossos irmãos.

Jesus novamente ensina sobre a justiça divina. Assim como precisamos perdoar para sermos perdoados, também precisamos não julgar para não sermos julgados.

Regra de ouro

“Tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o vós a eles. Esta é a Lei e os Profetas.” (Mateus, 7:12)

Isto vai além do amar ao próximo como a si mesmo.  É a essência do servir a Deus. Fazer aos outros o que desejamos a nós mesmos; é se colocar a serviço do outro e dar o melhor ao outro, sem querer nada em troca. É muito mais que não fazer aos outros o que não gostaríamos que fizessem conosco.

Porta estreita

“Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram.” (Mateus, 7:13-14)

Jesus nos alerta ser restrita (estreita) a entrada (porta) do céu, sendo o caminho da vida para chegar ao céu bem justo (apertado), sendo raros os que o encontram. Poucos são os escolhidos, pois são poucos os justos de Deus, que se ajustam a Sua Vontade de amar incondicionalmente; que seguem as bem-aventuranças (a essência disciplinar de Deus) independentemente da provação.

Por outro lado, qualquer um entra pela porta larga [da Mentira], caminhando a sua própria vontade (egoisticamente) por esse espaçoso caminho de ilusão, fantasias e desejos, que nos leva à perdição.

No Caminho do Coração (das bem-aventuranças), nossa vontade se une à Vontade de Deus. No caminho da perdição, nossa vontade se separa cada vez mais da Vontade de Deus. Quanto mais longe de Deus colocamos nosso coração, mais distantes da Verdade, do Amor e da Felicidade nos colocamos. Sem a Luz [da Verdade] de Deus nos perdemos na escuridão [das mentiras]. É a prática da Verdade que nos liberta!

“Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não pregamos nós em vosso nome, e não foi em vosso nome que expulsamos os demônios e fizemos muitos milagres? E, no entanto, eu lhes direi: Nunca vos conheci. Retirai-vos de mim, operários maus!” (Mateus, 7:21-23)

Jesus também nos alerta para o fato de que apenas crer ou reconhecer que Ele é nosso Senhor não é suficiente para sermos salvos e reconhecidos como os seus verdadeiros discípulos, filhos de Deus. Para isto precisamos fazer verdadeiramente a vontade de Deus. E que esta Vontade de Deus está na simplicidade das bem-aventuranças e não na ostentação de milagres, pois hipócrita e operário do mau é aquele que ostenta crer, clamando pelo Senhor, inclusive expulsando demônios e fazendo milagres em Seu nome, tirando assim vantagens próprias sem realizar as bem-aventuranças.

Deus quer que sejamos a Sua imagem e semelhança, assim como fomos criados; quer que sejamos honrados e fieis aos nossos compromissos, pagando nossas dívidas até o último centavo; Ele é todo misericordioso e quer nos perdoar, mas para isso precisamos perdoar nossos irmãos devedores, sendo misericordiosos. Esta reciprocidade faz de Deus sempre justo, utilizando da mesma medida que julgamos nossos irmãos para nos julgar.

Os falsos profetas

“Guardai-vos dos falsos profetas. Eles vêm a vós disfarçados de ovelhas, mas por dentro são lobos arrebatadores. Pelos seus frutos os conhecereis. Colhem-se, porventura, uvas dos espinhos e figos dos abrolhos? Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos. Toda árvore que não der bons frutos será cortada e lançada ao fogo. Pelos seus frutos os conhecereis.” (Mateus, 7:15-20)

Então, Jesus nos orienta a tomar cuidado com os falsos profetas e nos ensina a observarmos os frutos (as obras) destes homens. Se o homem for bem-aventurado, humilde e bondoso, igualmente de acordo serão os seus frutos. Mas se nas suas ações houver alguma ostentação, exibição vaidosa ou interesse particular, então, com a mesma natureza está o coração desta. Assim, Jesus nos ensina a “sondar o coração” pela natureza das obras.

Edificar sobre a rocha

“Aquele, pois, que ouve estas minhas palavras e as põe em prática é semelhante a um homem prudente, que edificou sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela, porém, não caiu, porque estava edificada na rocha. Mas aquele que ouve as minhas palavras e não as põe em prática é semelhante a um homem insensato, que construiu sua casa na areia. Caiu a chuva, vieram as enchentes, sopraram os ventos e investiram contra aquela casa; ela caiu e grande foi a sua ruína.” (Mateus, 7:24-27)

Jesus, concluindo o seu sermão, observa que aqueles que ouvem e são prudentes colocando em prática verdadeiramente as bem-aventuranças, são possuidores de uma fortaleza espiritual (de caráter, humor e coração), podendo vir a condição externa que for (obstáculos e dificuldades) que se manterão firmes, em retidão e em harmonia, estando protegidos. Pelo contrário, os insensatos que agem sem fundamento moral-espiritual, arruínam-se facilmente, não conseguindo manter firme sua felicidade.

Fim narrativo

No fim narrativo, o evangelista São Mateus descreve que a multidão que foi ouvir o sermão ficou impressionada, tanto com a magnitude de sua doutrina como pela autoridade exemplar que Jesus ensinava (Mt 7, 28-29).

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