Ensaios históricos sobre reencarnação ou transmigração da alma

A reencarnação ou transmigração da alma é vista desde as civilizações mais antigas de todos os tempos, e como tal, foi assumindo diversos contornos. Dois pontos fundamentais, contudo, são comuns a praticamente todas essas concepções:

· Que em um dado momento, a alma retorna em outra “vida transitória” num outro corpo, para experienciar algum aprendizado.

· Que essa migração da alma de um corpo a outro tem relação com a Lei de Causa e Efeito, onde o que colhemos hoje é fruto do que semeamos no passado.

Cabe aqui salientar que a civilização humana (pós-atlante) iniciou-se pelo Himalaia, que é a cordilheira mais alta do mundo (onde se encontra o Monte Everest). Esta cordilheira abrange 5 países: Índia, China, Butão, Nepal e Paquistão. Por isso, as civilizações hindu e chinesa são as mais antigas do mundo (ver postagem “Desenvolvimento da Terra e dos Seres Humanos“)

Dentro do conhecimento atual da história já é visto o conceito reencarnacionista presente na Índia desde mais de 5000 anos, época que teria sido escrito os Vedas (Escrituras Sagradas), sendo que a mais antiga sistematização escrita dos Vedas que se tem notícia foi feita pelo sábio Vyasa há mais ou menos 3300 anos.

No hinduísmo, que não é uma religião e sim a junção de várias crenças/tradições baseadas nos Vedas, a reencarnação está diretamente associada ao karma. O karma (termo que pode ser traduzido como “ação”) é uma lei universal que concebe o sistema de causa e efeito. Em linhas gerais, o presente do ser humano está delineado segundo aquilo que ele próprio realizou ou definiu no passado, e o futuro pelo que ele próprio está realizando no presente. Por exemplo, se um homem nasce cego, é porque fez algo inadequado com sua própria visão ou de outrem, em uma vida anterior, e está experimentando as conseqüências de seus atos para que possa compreender seu erro.

No hinduísmo é visto que os prazeres materiais servem como uma espécie de desvio do propósito superior da alma. Assim sendo, quando a alma consegue viver, através de suas vidas, uma encarnação mais ascética, atinge o que se chama de “moksha” ou “salvação/liberação”.

No vedanta e na maioria das diversas tradições hindus que se fundamentam no Vedanta, o ciclo de transmigração da alma, ou samsara, não é feito exclusivamente do passado para o presente, numa temporalidade linear como a concebida pela cosmologia Ocidental. O ciclo pode se deslocar para qualquer posição no espiral do tempo e, de acordo com as diferentes inferências feitas pelos sábios, em quaisquer Brahmandas, ou universos da criação material, e em quaisquer tipos de corpos, entre as 8,4 milhões de espécies transmigráveis, podendo haver evolução ontogênica ou filogência, nos dois sentidos: elevação e degradação; de semi-deus a larva, de planta a ser humano, e vice-versa. De fato, as possibilidades de transmigração são infinitas.

Na China também se perde a origem do ensinamento sobre reencarnação, sendo que a religião mais antiga o Taoísmo, fundada após os ensinamentos do sábio Lao Zi ou Lao Tse (nascido aproximadamentente há 1400 a.C), sendo que as origens da sabedoria do Tao já remontariam ao Imperador Amarelo (que teria reinado de 2698 a.C a 2599 a.C) ou ao Imperador  Fu Xi que através de uma revelação num casco de uma tartaruga teria visto as 8 mutações (Ba Gua ou Pa Kua) e teria provavelmente desenvolvido o primórdio do I Ching há aproximadamente 3000 a.C.

No Budismo, religião que teve origem na Índia com Buda Sakyamuni (Sidarta Gautama), que viveu aproximadamente entre 563 a.C. a 483 a.C, também é ensinado sobre a reencarnação. Assim como no Taoísmo é observado a transmigração da alma ou ciclo de transmigração (Lun Hue) através de 6 vias. É ensinado que o Universo-Existencial como Um-Todo é uma soma de três mundos: 1) Mundo do Desejo (Yu Jie); 2) Mundo da Forma (Sée Jie); 3) Mundo sem-Forma (Wu Sée Jie). No Mundo do Desejo todas as coisas são motivadas e condicionadas pelos efeitos sensoriais. No mundo da Forma todas as coisas são prisioneiras das Formas concretas e abstratas. No Mundo Sem-Forma a existência é o próprio êxtase profundo, nele não há desejo nem forma. Dentro do três mundos existem seis “caminhos”: 1) Caminho do Céu (ou dos Devas e das Bem-Aventuranças); 2) Caminho dos Demônios (asuras); 3) Caminho do Homem; 4) Caminho do Animal; 5) Caminho da Alma Esfomeada (ou Fastasmas Famintos); 6) Caminho da Prisão Infernal. Os caminhos da Prisão Infernal, da Alma Esfomeada e o do Animal (quando no sentido de degradação) são três caminhos da escuridão. Os Caminhos do Céu e do demônio são os caminhos Yang e Yin dos reinos celestes. O Caminho do Homem é o Caminho de Aprendizagem, pois nele se encontram as características de todos os outros mundos. No Mundo do Desejo encontram-se todos os seis Caminhos. Dentro do Mundo da Forma existem apenas os caminhos do Céu e do Demônio. E no mundo Sem-Forma existe somente o Caminho do Céu. Todos os seres dos três Mundos e dos seis caminhos estão sujeitos a Lei da Transmigração e isso significa que tanto um ser da hierarquia superior (por exemplo, um Anjo ou uma Divindade Luminosa) quanto da inferior (por exemplo, um animal) podem ter um destino absolutamente dinâmico. Sendo que somente através do Caminho de Aprendizagem do Homem é  possível alcançar o Reino de Deus, o Absoluto, a Ressureição de Cristo em nós, o Nirvana, o Samadhi, quando atma se funde a Braman, assim superarando o ciclo de transmigração.

Da civilização antiga Persa (hoje Irã), que teve seu alge entre 5.067 – 2.907 a.C., com o Zoroastrismo ou Mazdeísmo, fundado por Zoroastro ou Zaratrusta, cujo livro sagrado é o ZendAvest, ensinava a reencarnação, porém depois da dominação por outros povos, essa religião foi muito corrompida  e quase dizimada, sofrendo modificação de sua doutrina.

O conceito da reencarnação também era visto na civilização babilônica, especialmente com relação à mitologia do panteão de deuses babilônios. Como exemplo temos a história de Tamuz, filho de Semíramis, considerado uma reencarnação do rei-divino Nimrod.

Ao longo do desenvolvimento histórico das civilizações mesopotâmias, a doutrina também era difundida entre os egípcios, bem como do império assírio. No Egito, tomou proporções importantes, ao ponto de Heródoto afirmar:

Os egípcios foram os primeiros a assegurarem a imortalidade da alma, e que ela passa da morte do corpo a outro animal; e quando percorreu o ciclo de todas as formas de vida na terra, na água e no ar, ela mais uma vez adentra um corpo humano que lhe nasce; e este ciclo da alma leva três mil anos” (Heródoto 2:123)

No chamado “Livro dos Mortos”, a reencarnação está associada à punição pelo pecado. A alma de um pecador se reencarnaria num animal, para pagar por seus pecados.

Lembrando que foi a partir dessa época 2.907 a 747 (Egípcia-Caldáica / Babilônia-Assíria) que começou o consumo de carne pela humanidade.

A doutrina reencarnacionista também era promovida pelos gregos por volta do século 6 a.C. É através da cultura e pensamento gregos que a doutrina se populariza no Ocidente. O reencarnacionismo ganha força através do filósofo grego Pitágoras, por volta do século 4 a.C. Na origem da filosofia grega estavam os cultos a Orfeu. A reencarnação permanecia compreendida como uma forma de expiar pelos pecados de uma vida passada.  Na filosofia grega, a reencarnação é conhecida como metempsicose, a qual é mencionada nos escritos de alguns dos principais filósofos gregos como Sócrates, Pitágoras e Platão.

Na época romana o consumo de carne passou a ser maior, bem como o consumo de vinho. O caráter romano é prático, agressivo e personalista. Conforme a humanidade se afastava mais de seu propósito original, menos era bem-vinda a reencarnação (e o vegetarianismo), passando-se a ser considerada uma teoria a ser combatida, por ser contra seus interesses egoístas.

No Judaísmo também houve uma proliferação do consumo de carne e vinho, inclusive pelos rabinos que detinham poder. Logo, o conceito da reencarnação passou a ser ensinado apenas dentro de ordens místicas ascéticas, entre elas a dos Essênios, dos quais os membros eram vegetarianos e entre eles estiveram nada menos que João Batista e Jesus. Na época, as três ordens principais do judaísmo eram os tsedukim (saduceus) que não criam em ressurreição nem reencarnação e se associavam aos romanos, os p’rushim (fariseus) que criam na ressurreição e não na reencarnação, e os assa’im (essênios) que criam na ressurreição e na reencarnação.

Considerar que Cristo não era vegetariano é o mesmo que não acreditar no seu Amor Divino Incondicional. É dizer que seu amor não é absoluto, não alcançando os animais. Certamente foi o mesmo Amor e Sabedoria Divina que inspiraram também São Franscisco de Assis que amava todas as criaturas, tratando todos os animais como irmãos, inclusive sendo vegetariano.

Pois bem, na idade média surgiu literatura judaica que deu mais respaldo à reencarnação, o Zohar, mais precisamente na descrição sobre o que é chamado de “guilgul neshamot” (transmigração das almas). Segundo o Zohar, as almas são criadas e destinadas a um determinado local. Ao regressarem de sua estadia na terra, caso estejam impregnadas de pecado, devem regressar ao mundo (inclusive como animais) para evitarem o Guehinom (inferno). As almas, através, de boas obras, são purificadas de seus pecados pregressos.

Com a perseguição do ensino sobre a reencarnação no Ocidente, bem como de práticas de auto-conhecimento e esotéricas, consideradas hereges pela Igreja Católica, então, esta passou a ser privilégio dentro de ordens místicas ou gnósticas. O Gnosticismo dá mais ênfase a prática individual interior (esotérica), observando a relação entre o microcosmo e o macrocosmo, buscando a união individual com Deus, com o Amado, que é a Realidade Suprema. Dentre essas ordens secretas, podemos apontar as ordens místicas maometanas (Sufismo), as ordens cabalísticas dentro do Judaísmo, as ordens maçônicas e rosacruz derivadas dentro do Cristianismo, bem como a teosofia e depois a antroposofia.

Cabe salientar que muitos adeptos e até ordens inteiras inconscientemente acabaram se desviando do propósito original, valorizando mais o saber e o poder do que o Ser, cedendo a tentação das forças luciféricas e arimãnicas (demoníacas), assim como também infelizmente ocorreu com pessoas dentro das religiões.

Somente com o Espiritismo que a reencarnação voltou a ser mais vista no Ocidente.

Salientamos que no Oriente a transmigração da alma sempre foi algo mais acessível a todos, tanto para exotéricos (práticas focadas no externo) como esotéricos (práticas focadas no interno).

De qualquer modo, o Verdadeiro Caminho, o Caminho da Cruz, o Caminho do Meio, está na integração e comunhão do exotérico com o esotérico (bem como do Oriente com o Ocidente), que “deixam de existir” para Ser Um [só corpo e um só Espírito]; que nesse caso, a busca deixa de ser interior ou exterior, sendo mais importante o servir como instrumento para manifestar o Amor Incondicional Divino a todos os seres sencientes.

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