A Gula e as Tentações de Cristo

O que faz uma pessoa reconhecer a verdade é a claridade em sua consciência e visão, que é condicionada ao grau de pureza em seu coração.  Quanto mais sujeira tiver no coração, mais fumaça vai subir e turvar sua visão. Se sua consciência está ofuscada, a pessoa não é capaz de observar dentro de sua experiência uma verdade sutil, pois não possui sensibilidade espiritual para isso.

Como Jesus dizia, quem tem ouvidos para ouvir, ouça. Quem tem olhos para ver, veja!

De nada adianta falar da verdade sobre a alimentação para uma pessoa que em seu coração existe grande apego ao que come. Ela irá buscar várias justificativas para defender o seu vício.

Por isso é muito importante a pessoa ter dentro de seu propósito de vida o purificar seu coração. Todos os Grandes Mestres ensinam que o Amor (Ágape) é o Caminho para o Reino Deus e para a Verdade.

São Paulo descreve o amor como segue: “O amor (ágape) é paciente, o amor é benigno. Sem inveja, ele não tem ostentação, ele não é orgulhoso. Não é rude, ele não é interessado, ele não se irrita facilmente, ele não mantém nenhum registro dos erros. O amor não se deleita com o mal mas rejubila com a verdade. Protege sempre, confia sempre, sempre tem esperança, sempre persevera. O amor nunca falha.” (I Coríntios, 13, 4:8).

Enquanto o amor é eterno, a paixão mundana é efêmera. A paixão mundana é cheia de desejos e o amor não é interessado. Podemos dizer que a paixão mundana é o amor desviado (que tropeçou e caiu), por isso tem inveja, ostentação e é orgulhoso; leva a pessoa a ser rude por não conseguir seu interesse; ela se irrita facilmente e se apega aos erros, guardando mágoas. A paixão mundana acaba por se deleitar com o mal e rejubilar com a mentira; faz qualquer coisa para conseguir o que quer; por ser insegura sempre ataca e não confia, perdendo a esperança, não persevera, confortando-se em redirecionar sua paixão para outro objeto (ilusão) ou transforma-se em ódio destruindo o próprio objeto de paixão.

Etimologicamente, o sentido mais antigo da palavra pecar (“peccare”) era “tropeçar” e tudo indica  que o radical pecc– esteja ligado à mesma raiz de pes (genitivo pedis) “pé”. O pé serve para caminhar, do caminhar vem um sentido-direção, um objetivo-propósito-missão. Quando tropeçamos ou nos desviamos do Caminho correto, da Verdade, de nosso propósito original, então, estamos pecando.

Desde tempos antigos é visto que a gula é um dos caminhos mais diretos à luxúria e à perdição da alma. É a primeira tentação do demônio. Isto nos é ensinado na passagem de Jesus no deserto sendo tentado pelo demônio. Tentando detectar uma fraqueza em Cristo o demônio nos revelou seu modo de agir, a maneira pela qual o “príncipe deste mundo” atrai homens para o seu reino, e é isso que estudaremos mais em detalhes.

As tentações são narradas em três evangelhos, em São Mateus (Capítulo 4; 1 – 11), em São Marcos (Capítulo 1; 12 e 13) e em São Lucas (Capítulo 4; 1 – 13). São Marcos:
E logo o Espírito o impeliu para o deserto. E esteve quarenta dias e quarenta noites; e era tentado por Satanás; e estava com as feras , e os anjos o serviram.”
São Mateus
São Lucas
1ª Tentação
E, aproximando-se (dele) o tentador, disse-lhe: Se és filho de Deus, dize que estas pedras se convertam em pães. Ele, porém, respondendo-lhe, disse: Está escrito: Não só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus.
Disse-lhe então o demônio: Se és Filho de Deus, dize a esta pedra que se converta em pão. E Jesus respondeu-lhe: Está escrito: O homem não vive só de pão, mas de toda a palavra de Deus.
2ª Tentação
Então o demônio transportou-o à cidade santa, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se és filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito: Confiou aos seus anjos o cuidado de ti, e eles te tomarão nas mãos, para que não tropeces com o teu pé na pedra. Jesus disse-lhe: Também está escrito: Não tentarás o Senhor teu Deus.
E o demônio conduziu-o a um alto monte, e mostrou-lhe, num momento, todos os reinos da terra, e disse-lhe: Dar-te-ei o poder de tudo isso, e a glória destes (reinos), porque eles foram-me dados, e eu dou-os a quem me parece. Portanto, se tu me adorares, todos eles serão teus. E Jesus, respondendo, disse-lhe: Está escrito: Adorarás o Senhor teu Deus, e a Ele só servirás.
3ª Tentação
De novo o demônio o transportou a um monte muito alto, e lhe mostrou todos os reinos do mundo e a sua magnificência. E lhe disse: Tudo isto te darei, se, prostrado, me adorares. Então Jesus disse-lhe: Vai-te, Satanás, porque está escrito: O Senhor teu Deus adorarás, e a ele só servirás.  Então o demônio deixou-o; e eis que os anjos se aproximaram, e o serviram.
E levou-o a Jerusalém, e pô-lo sobre o pináculo do templo, e disse-lhe: Se és Filho de Deus, lança-te daqui abaixo. Porque está escrito que Deus mandou aos seus anjos que tivessem cuidado de ti, e que te guardassem, e que te sustivessem em mãos, para não magoares o teu pé em nenhuma pedra. E Jesus, respondendo, disse-lhe: (Também) foi dito: Não tentarás o Senhor teu Deus. E, terminada a tentação, retirou-se dele o demônio até outro tempo.

Com as sagradas escrituras aprendemos que o demônio já se utilizou dos vícios da gula, vaidade (vanglória) e cobiça (avareza) para vencer Adão. Sendo assim deveria incitar suas tentações contra Cristo da mesma forma. Cristo então deveria vencer as tentações objeto da queda de Adão. Assim nos argumenta São Tomás:

“(…) Primeiro provocou-o com a comida da árvore proibida: “É verdade que Deus vos disse: ‘Não comais de nenhuma das árvores do jardim’?” Segundo, incitou-o à vanglória dizendo: “Os vossos olhos se abrirão”. Terceiro, propôs-lhe a tentação de extrema soberba: “Sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal”.

O mesmo modo observou ao tentar Cristo. Primeiro tentou-o a respeito do que moderadamente desejam as pessoas espirituais, isto é, o sustento do corpo pelo alimento. Segundo, passou àquilo em que as pessoas espirituais algumas vezes falham, a saber, fazer alguma coisa por ostentação: o que pertence à vanglória. Terceiro, propôs-lhe uma tentação própria não mais de pessoas espirituais, senão de carnais, isto é, a ambição de riquezas e de glória mundana “até o desprezo de Deus”.Suma Teológica de Santo Tomás IIIª, Q. 41, a.4, rep.

Para os homens que não caem no pecado da gula o demônio reserva um segundo grau de tentações, conforme o evangelho de São Mateus, a tentação de vaidade/vanglória. E finalmente para aqueles que não prostituem sua alma pela gula ou pela vaidade/vanglória há ainda a derradeira tentação: cobiça/avareza, que é a servidão ao demônio diretamente. Lembremos que não se  pode servir a dois Senhores (Mateus 6:24).

Assim ensina um resumo do ensinamento de São João Crisóstomo:
Ahora expliquemos brevemente qué significam las tentaciones de Cristo.(…) El que se habitúa con el pecado convierte la piedra en pan. Responda, pues, al demônio cuando le tiende, dicendo: “Que no de sólo el uso de aquella cosa vive el hombre, sino de la observancia de los mandatos de Dios”. Cuando alguno se engríe como si fuese santo, es como llevado al templo, y cuando se crea que está en la cumbre de la santidad, entonces es cuando le coloca sobre el pináculo del templo, y ésta es la tentación que sigue a la primera, porque la victoria de la tentación produce la vanagloria e es causa de jactancia. Pero advierte que Cristo ayunó voluntariamente. El diablo lo llevó al templo para que ti te consagres espontáneamente a la abstinencia, pero por ello no te creas que has llegado a la cumbre de la santidad; huye del orgullo del corazón y no experimentarás tu ruina; la subida al monte es la marcha hacia las riquezas y la gloria de este mundo, como que desciende de la soberbia del corazón. Cuando quieras rico, lo cual equivale a subir al monte, empiezas a pensar en adquirir las riquezas y los honores, y entonces el Príncipe de este mundo te manifiesta la gloria de su reino. En tercer lugar, te ofrece las causas para que, se las quieres seguir, le sirvas, menospreciando la justicia de Dios.” (Catena Aurea, Santo Tomás de Aquino, edição do Curso de Cultura Catolica, Buenos Aires, Vol I. páginas 99 e 100).

Vale lembrar que muitos autores, além do Papa, identificam uma profunda relação entre os princípios da modernidade e os ensinamentos do diabo, e colocam, por exemplo, a lenda do final da Idade Média do Dr. Fausto (o homem erudito que vende sua alma ao demônio Mefistófeles) como um arquétipo do projeto da modernidade. Isso é apontado por MichaeI Jaeger na obra “Fausto” de Goethe [1749 – 1832] (um dos escritores mais importantes da literatura alemã), ou ainda, por Octávio Paz [1914 – 1998], que comenta a proximidade entre a revolta presente na modernidade e o anjo da rebeldia: Lúcifer.

Segundo Evagrio Pôntico (+399 d.C): “Dos demônios (diabolos) nos opondo na prática (praktike) da vida ascética (askesis), existem três grupos que lutam na linha de frente: aqueles encarregados dos apetites da gula (gastrimargia), aqueles que sugerem (prosbolepensamentos (logismos) avaros (philargyria), e aqueles que nos incitam a buscar a estima (hyperephania) dos homens. Todos os outros demônios seguem atrás e em sua vez atacam àqueles já feridos pelos primeiros três grupos. Pois não se cai em poder do demônio da não castidade (porneia), a não ser que se tenha primeiro caído por causa da gula; nem a cólera se levanta a não ser que se esteja lutando por comida ou possessões materiais ou estima dos homens. E não escapa do demônio da tristeza (lype), a não ser que se experimente mais sofrimento quando privado destas coisas. Nem se escapará do orgulho, primeiro fruto do diabo, a não ser que se tenha banido a avareza, a raiz de todo o mal, pois a pobreza faz um homem humilde (tapeinophrosyne), de acordo com Salomão (Prov. X, 4). Em breve, ninguém pode cair no poder de qualquer demônio, a não ser que tenha se ferido por aqueles da linha de frente. É por isto que o diabo sugeriu estes três pensamentos ao Salvador: primeiro O exortou a converter pedras em pão; então O prometeu todo o mundo, se Cristo se prostrasse e o adorasse; e em terceiro lugar disse, se nosso Senhor o ouvisse, Ele seria glorificado e nada sofreria se caísse do pináculo do templo. Mas nosso Senhor, tendo mostrado Ele mesmo superior a estas tentações (peirasmos), ordenou ao diabo a “pôr-se atrás Dele”. Desta maneira Ele nos ensinou que não é possível afastar o diabo, a não ser rejeitando com total desprezo estes três pensamentos (logismos) (Mat. IV, 1-10).” Textos sobre Discriminação em respeito a paixões e pensamentos

A grande verdade é que nos tornamos ignorantes, cegos para a Verdade, pecamos sem saber e estamos na direção do inferno sem saber, correndo atrás de migalhas. Mas se pudermos dar nosso primeiro passo: vencendo a gula através de uma alimentação moderada vegetariana, sem alho, cebola, cebolinha…, já eliminamos um dos três demônios da comissão de frente, o que nos dará mais força para vencer os outros dois demônios.

Quanto mais iluminada uma pessoa fica, mais amor caridoso ela sente e menos paixão egoísta. O Iluminado, enquanto no mundo, possui também uma paixão (forte desejo), mas é altruísta e para com o divino. O êxtase gerado pelo amor caridoso (águape) unido à paixão altruísta divina (eros transmutado) é muito mais sublime e duradouro do que um mero orgasmo sexual (eros, de erótico). É como comparar um banquete com migalhas. Observando a paixão de Cristo, o amor dos grandes místicos, como São Francisco de Assis e Rumi, podemos perceber a existência de uma paixão divinizada, que na verdade é a paixão original de Deus ao criar o mundo e os seres humanos.

Infelizmente, as pessoas sofrem e se matam por migalhas e não percebem que existe um grande banquete as esperando: a verdadeira e eterna felicidade.

Fontes para esta postagem:

http://www.montfort.org.br/index.php?secao=cartas&subsecao=doutrina&artigo=20101203152427&lang=bra

http://confrariadesaojoaobatista.blogspot.com/2009/05/cura-dos-pecados-um-olhar-que-cura-pe.html

http://www.sophia.bem-vindo.net/tiki-index.php?page=Tenta%C3%A7%C3%B5es+de+Cristo

http://revistalingua.uol.com.br/textos.asp?codigo=11995

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