São Clemente de Alexandria (c. 150-220)

Como vimos num artigo anterior, São Clemente de Alexandria, um dos primeiros sábios cristão, era vegetariano. Temos muito o que aprender com ele, então, estudaremos agora um pouco sobre ele.

Tito Flávio Clemente, de família gentia, nasceu em Atenas por volta do ano 150 da nossa era. Após a sua conversão ao cristianismo, viajou para muitos lugares da própria Grécia, Ásia Menor e Palestina. No entanto, foi em Alexandria que encontrou o seu verdadeiro paradeiro: primeiro como aluno de Panteno; depois, com a morte deste, como diretor da escola catequética. Com a perseguição de Septímio aos cristãos, fugiu do Egito em companhia de um “ex-discípulo” seu, Alexandre, Bispo de Cesareia, deixando o comando da escola com seu discípulo Orígenes. Parece ter falecido no interstício de 212 a 217.

Muito versado tanto na literatura cristã como na filosofia grega, Clemente merece ser tido como o primeiro dos sábios cristão. São Clemente, com um entusiasmo desmedido, mostra que a Revelação Cristã é o complemento necessário à filosofia grega, fazendo inclusive uma analogia gnóstica muito interessante, observando a filosofia como serva (mulher estranha) da Sabedoria (esposa legítima e fiel):

“Abraão é fiel a Sara – sua esposa legítima –, figura da Sabedoria; Agar, escrava de Sara, representa as ciências profanas (a filosofia). Abraão esteve com Agar, porque esta era jovem e ainda não havia chegado a hora de Sara dar-lhe o filho. Contudo, Abraão reconhece desde o princípio, que maior honra e respeito ele deve a Sara. Admite, ademais, que Agar é escrava de Sara, pelo que esta pode dispor daquela como quiser. Ora bem, esta imagem exemplifica, segundo Clemente, como o fiel deve proceder com as ciências profanas, isto é, deve usá-las naquilo que lhe forem úteis até que elas o levem ao limiar da verdadeira filosofia, que é a Sabedoria cristã, suprema verdade. Deve manter a filosofia sempre sob o jugo da teologia.” (http://www.filosofante.org/filosofante/not_arquivos/pdf/Verbo_Pedagogo.pdf)

Vale a pena ler todo trabalho disponível no link acima.

Podemos observar que enquanto nossa razão (que gera todas as ciências e filosofias) não estiver a serviço da Essência (Consciência e Sabedoria Divina), seus frutos (pensamentos e interpretações), por maiores que sejam, serão sempre limitados e, diante de sua natureza transitória-mundana, gerarão orgulho, vaidade e/ou avareza. Porém, quando a razão estiver verdadeiramente a serviço da Essência, seus frutos conjuntos serão humildes e alcançarão cada vez mais a perfeição.

São Clemente observa o Verbo como pedagogo supremo.  Mas o que o Verbo nos ensina? Em que consiste este ensinamento? Qual a sua finalidade na vida do homem? Ora, o verdadeiro conhecimento é o conhecer-se a si mesmo, visto que, conhecendo a si próprio, o homem amará a todos como a si mesmo, pois conhece a Deus, e então se conhece como imagem e semelhança de Deus.

Nas palavras do Papa Bento XVI:

Clemente retoma finalmente a doutrina [original] segundo a qual o fim último do homem é tornar-se semelhante a Deus. Somos criados à imagem e semelhança de Deus, mas isto ainda é um desafio, um caminho; de facto, a finalidade da vida, o destino último é verdadeiramente tornar-se semelhantes a Deus. Isto é possível graças à conaturalidade com Ele, que o homem recebeu no momento da criação, pelo que ele já em si a imagem de Deus. Esta conaturalidade permite conhecer as realidades divinas, às quais o homem adere antes de tudo pela fé e, através da fé vivida, da prática da virtude, pode crescer até à contemplação de Deus. Assim, no caminho da perfeição, Clemente atribui à exigência moral a mesma importância que atribui à intelectual. Os dois caminham juntos porque não se pode conhecer sem viver e não se pode viver sem conhecer. A assimilação a Deus e a contemplação d’Ele não podem ser alcançadas unicamente com o conhecimento racional: para esta finalidade é necessária uma vida segundo o Logos, uma vida segundo a verdade. E por conseguinte, as boas obras devem acompanhar o conhecimento intelectual como a sombra segue o corpo.

Principalmente duas virtudes ornamentam a alma do “verdadeiro gnóstico”. A primeira é a liberdade das paixões (apátheia); a outra é o amor, a verdadeira paixão, que garante a união íntima com Deus. O amor doa a paz perfeita, e coloca o “verdadeiro gnóstico” em condições de enfrentar os maiores sacrifícios, também o sacrifício supremo no seguimento de Cristo, e fá-lo subir de degrau em degrau até ao vértice das virtudes. Assim o ideal ético da filosofia antiga, isto é, a libertação das paixões, é definido e conjugado por Clemente com amor, no processo incessante de assimilação a Deus.

Deste modo o Alexandrino constrói a segunda grande ocasião de diálogo entre o anúncio cristão e a filosofia grega. Sabemos que São Paulo no Areópago em Atenas, onde Clemente nasceu, tinha feito a primeira tentativa de diálogo com a filosofia grega e em grande parte tinha falhado, mas tinham-lhe dito: “Ouvir-te-emos outra vez”. Agora Clemente, retoma este diálogo, e eleva-o ao mais alto nível na tradição filosófica grega. Como escreveu o meu venerado Predecessor João Paulo II na Encíclica Fides et ratio, o Alexandrino chega a interpretar a filosofia como “uma instrução propedêutica à fé cristã” (n. 38). E, de facto, Clemente chegou a ponto de afirmar que Deus dera a filosofia aos Gregos “como seu próprio Testamento” (Strom. 6, 8, 67, 1). Para ele a tradição filosófica grega, quase ao nível da Lei para os Judeus, é âmbito de “revelação”, são duas correntes que, em síntese, se dirigem para o próprio Logos. Assim Clemente continua a marcar com decisão o caminho de quem pretende “dizer a razão” da própria fé em Jesus Cristo. Ele pode servir de exemplo para os cristãos, catequistas e teólogos do nosso tempo, aos quais João Paulo II, na mesma Encíclica, recomendava que “recuperassem e evidenciassem do melhor modo a dimensão metafísica da verdade, para entrar num diálogo crítico e exigente com o pensamento filosófico contemporâneo”.

Concluímos fazendo nossas algumas expressões da célebre “oração a Cristo Logos”, com a qual Clemente encerra o seu [livro] Pedagogo. Ele suplica assim: “Sê propício aos teus filhos”; “Concede que vivamos na tua paz, que sejamos transferidos para a tua cidade, que atravessemos sem ser submergidos as ondas do pecado, que sejamos transportados em tranquilidade pelo Espírito Santo e pela Sabedoria inefável: nós, que de noite e de dia, até ao último dia cantamos um cântico de acção de graças ao único Pai,… ao Filho pedagogo e mestre, juntamente com o Espírito Santo. Amém!” (Ped. 3, 12, 101).”  (http://christianopereira.blogspot.com/2008/11/padres-da-igreja-clemente-de-alexandria.html)

Um fato interessante a considerar, relatado por Eusébio (Bispo de Cesareia) é que Panteno, professor de São Clemente de Alexandria, também teria viajado por muito lugares (inclusive a Índia), catequisando e levando consigo o Evangelho Original de São Mateus (primeiro evangelho). Este Evangelho, conforme a história nos mostra, depois teria sido modificado [ajustado aos interesses de pessoas com poder].

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: